
Urnas funerárias em casa, aspergir cinzas na natureza ou ainda encomendar diamantes memoriais começam a ser permitidos só agora no país
Alguns estados alemães modernizaram recentemente suas regras sobre sepultamentos. O primeiro deles, desde 1º de outubro, permite que cinzas possam ser espalhadas nos rios Reno, Mosela e Sarre. Até então, essa prática era proibida em toda a Alemanha.
"Depois de mais de 42 anos, criamos uma abordagem que concilia as ideias e desejos individuais com um ato digno de despedida", afirmou o secretário de Saúde.
Aprovada pelo governo estadual formado pelo Partido Social-Democrata (SPD), Verdes e Partido Liberal Democrático (FDP), a nova legislação contempla ainda a possibilidade de manter em casa a urna com as cinzas do ente querido – outra inovação – ou espalhá-las pelo jardim. A criação de "diamantes memoriais" a partir de cinzas também está liberada em dois estados. Os diamantes sintéticos são produzidos em altas temperaturas a partir do carbono extraído das cinzas. Esse processo foi introduzido na Suíça há duas décadas e vem ganhando popularidade nos últimos anos. No Brasil a técnica já é comercializada há pelo menos 10 anos.
A mudança, porém, não agradou a oposição conservadora, que alega que a modernização pode causar a extinção de cemitérios. O secretário chegou a ser chamado de "coveiro" por um deputado rival durante o debate na Assembleia Legislativa.
Também houve críticas das igrejas cristãs. O bispo católico de Mainz disse numa entrevista que ninguém saberia realmente o que acontece com os restos mortais guardados em casa.
"Detesto pensar em urnas esquecidas numa mudança ou em joias feitas de cinzas perdidas", pontuou o presidente da Igreja Luterana no Palatinado.
Ultrapassadas
A Associação Alemã de Agências Funerárias (BDB, na sigla em alemão), que representa 90% das cerca de 5 mil empresas do setor, vem lutando por mudanças na legislação. Para o secretário-geral da associação, as novas leis estaduais consagram a vontade da população.
Ele afirmou que frequentemente parentes enlutados expressavam para as empresas da associação o desejo de manter urnas funerárias em casa ou de criar uma joia com as cinzas do ente querido para guardar de lembrança. "A cultura funerária que temos na Alemanha mudou muito nos últimos anos."
Cerca de três quartos dos mortos na Alemanha são cremados. Assim, apenas um em cada cinco mortos é sepultado. Com as urnas ocupando um espaço bem menor, contratos de locação de terreno de apenas dez anos e custos de manutenção cada vez maiores, os cemitérios estão desaparecendo em todo o país.
Nos cemitérios de Berlim, por exemplo, uma área equivalente a 476 campos de futebol está atualmente vazia, segundo um relatório de 2024 da Universidade Técnica da capital alemã.
Tendências
O sociólogo Thorsten Benkel conta que essa tendência reflete a crescente mobilidade e a mudança de atitude em relação ao luto. "As pessoas não querem mais serem ditadas sobre como e onde devem sentir o luto. Muitos nunca visitam os túmulos por diversos motivos, por morar longe ou por achar deprimente. Muito nos dizem: 'O lugar de luto é onde eu estiver, não onde está o corpo'”, acrescenta o pesquisador da Universidade de Passau.
O espaço digital tem se tornado cada vez mais um local para o luto e para a preservação de memórias. Benkel não acredita que os cemitérios vão desaparecer, mas eles se tornarão uma opção entre várias. O pesquisador defende que quem mora na Alemanha deveria ter mais liberdade para decidir sobre o tema, assim como ocorre na Holanda.
As novas leis de dois dos estados alemães refletem ainda uma maior sensibilidade para a dor da perda gestacional, com o sepultamento obrigatório para fetos de abortos espontâneos e natimortos.
Ainda no pacote de modernização está o sepultamento com mortalha para muçulmanos e judeus.
Funerais ecológicos
A diversidade cultural e religiosa, a secularização e a preocupação com o bem-estar mental e ambiental estão crescendo num ritmo nem sempre acompanhado pelas regras funerárias no país germânico.
Cemitérios em meio a florestas são cada vez mais populares. O primeiro foi aberto em 2001. Hoje, somente os dois principais grupos do setor operam 175 locais do tipo no país. Muitos preferem o ambiente natural informal, além de ser uma opção mais barata, com arredamentos de até 99 anos.
Essa mudança em relação à natureza também se reflete no interesse por sepultamento em rios e no mar, apesar de seu potencial impacto ambiental.
Já o norte testa uma técnica mais radical: a redução orgânica natural, também conhecida como compostagem humana. Para isso, os corpos são colocados em casulos palha, onde microrganismos convertem os restos humanos em terra. O processo leva cerca de 40 dias. O projeto piloto, que vai até junho de 2026, está sendo monitorado pela Universidade de Leipzig. Até o momento, nenhum risco ambiental foi detectado.
Temor
A Aeternitas, uma iniciativa de consumidores de serviços funerários, gostaria que as regras dos dois estados fossem adotadas em toda a Alemanha, mas teme que haja uma resistência considerável.
"Um problema da Alemanha é que as regras de sepultamento são predominantemente caracterizadas por desconfiança e tradições ultrapassadas, enquanto uma abordagem mais liberal é comum em outros países. Muitos não seguem as regras existentes", afirma o porta-voz do grupo.
As diferenças nas leis regionais podem ainda criar situações absurdas: por exemplo, se uma pessoa que mora na Renânia-Palatinado possui uma urna funerária em casa e resolve se mudar para outro estado, ela não pode mais mantê-la em casa e nem deixar com outra pessoa.
Publicada em 02/02/2026 por Revista Diretor Funerário (Ctaf)